segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Escutatória

"Quando não se tem nada bom a dizer, é melhor ficar calado!"
Walter Silva - meu pai

Uma carroça vazia é muito mais barulhenta do que uma cheia.

Devido à falta de tempo, transcrevo um e-mail muito interessante que recebi de uma amiga alguns dias atrás.

Vezes se passaram com vontade de transmitir certas palavras, contudo os afazeres diários e inesperados impediram até então.

Segue o texto>

Escutatória
Rubem Alves
 
Sempre vejo anunciados cursos de oratória.
Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar,
ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória,
mas acho que ninguém vai se matricular...
 
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".
 
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça,
sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
 
Parafraseio o Alberto Caeiro:
"Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito;
é preciso também que haja silêncio dentro da alma".
 
Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer,
que é muito melhor...
 
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade:
no fundo, somos os mais bonitos...
 
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pelo golpe de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios:
reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo, silêncio.
(Os pianistas, antes de iniciar o concerto,
diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio.
Expulsando todas as idéias estranhas.).
 
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
 
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos,
pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos.
É preciso tempo para entender o que o outro falou.
 
Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado".
 
Segunda: "Ouvi o que você falou.
Mas isso que você falou como novidade
eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".
 
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo.
O que é pior que uma bofetada.
 
O longo silêncio quer dizer:
"Estou ponderando cuidadosamente
tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. 
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro,
a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
 
Eu comecei a ouvir.
 
Fernando Pessoa conhecia a experiência,
e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
 
A música acontece no silêncio.
A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada.
Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia,
ouvimos a melodia que não havia,
que de tão linda nos faz chorar.
 
Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros:
a beleza mora lá também.
 
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...


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